A FESTA DOS TREZE DIAS

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A FESTA DOS TREZE DIAS


Ruth Guimarães

Eu ainda sou do tempo em que festa de casamento durava oito dias. Nos fazendões do Sul de Minas era comum começar a matança de bois e de leitões, de frangos e perus para o casório numa terça-feira.  Quarta começavam a chegar os convidados.  Vinham de longe, empoeirados arranchavam-se na casa grande.
  Depois transbordavam para as casas de agregados, por ali.  Ficava gente no terreiro, na tulha, no rancho, no paiol.  Por essas alturas, a despensa estava até o teto de doces, nas caixetas e nos bolões de barro vidrado.  Nas prateleiras alinhavam-se os quindins e bombocados, bem-casados, papos-de-anjo, espera-marido, brevidades e sequilhos.  Mas havia também doce de abóbora, de batata, de cidra, de gamboa, de limão doce, de laranja azeda.  Eram os mais chinfrins, desses de guardar em lata vazia de banha, de vinte quilos.  Fazia-se deles às arrobas. O casamento era para sábado.  Mas bem inhantes: vá de comer, vá de beber, vá de festar.  O compadre trazia consigo a familiagem e mais a obrigação.  Quinta-feira chegava o padre, recebido com todas as honras, lá dentro, hospedado por três dias, como um rei.  Sexta enfeitava-se tudo com galhardetes, bambu e folhagem.

Sábado cedo era o casamento, com vivório e foguetório.  E não era acontecimento dos mais raros a noiva, afrouxada a vigilância em que a mantinha o pai, patriarca de velha cepa e maus bofes, no sábado mesmo bater as asas, na garupa do cavalo de um namorado antigo, deixando o marido com cara de bobo.  Sábado, pois, era o casamento. Em seguida vinha o banquete, uma comilança espantosa, e à noite os bailes: com violino e piano no salão, - de sanfona, no terreiro.  E que bailes! Iam até sol raiar, sete, oito horas da manhã de domingo, de segunda, de terça.  Terça-feira, de tardezinha, o compadre chupava um último ossinho de galinha, ajeitava as esteiras em cima do burro, botava a tralha e as crianças no cargueiro, a comadre fazia um amarrado de pano-de-prato com quitanda e doce seco, arrumava a matula para comer no caminho, e era na quarta-feira cedo, antes do sol raiar, que os convidados tomavam preguiçosamente, e com pena, o rumo dos seus pagos.  Atrás deles ficava  a  calamidade.  Se era tempo de milho, tinham sido talhadas todas as espigas.  Não ficava nem um ovo nos ninhos, para remédio.  Nem uma fruta nas fruteiras do pomar.  Nem laranja, nem banana, nem marmelo.  Que digo? Nem joá, que é frutinha desprezível.  Nem grumixama.  Nem maria-pretinha.  Homem, nem jenipapo! Se duvidar, nem carambola!

Na minha terra, a festa do padroeiro é à antiga, à moda do tempo da fartura, Santo Antonio, a 13 de junho. A festança começa dia primeiro.  Não há matança de gado, nada de comes e bebes, está certo, que as coisas não estão para isso - nem churrasco para o povo, nem rodeios, nem congadas, nem danças públicas.  Nada de pão e circo, que isso são práticas obsoletas.  As maneiras de gastar o dinheiro também têm que acompanhar o progresso e é bom não esquecer que estamos na era da televisão, isto é, muita ilusão e pouca substância.

Durante treze dias a cidade inteira se engalana.  As guirlandas de luzes coloridas atravessam as ruas, no alto e brilham e parecem tão solitárias na noite, tão miúdas e frias e sozinhas! Tão solitárias nas ruas vazias! Mas as estrelas também são solitárias, solitária é a rua, solitário cada um em seu canto no frio! Por um instante a rua se povoa de sonho e de sonoridades.  E lá se vão pelos ares, levadas nas asas do vento, as notas entusiásticas, é festa!

A procissão caminha, um santo pensativo desliza acima das cabeças; a igreja toda iluminada se enche de vozes, tosses, ruídos, palavras lindas.  A nave esplendente, enfeitada.  Tudo rosa, tudo claro, tudo lindo, flores de macieira, às braçadas, festa nos enfeites, nos dourados, festa espocando, festa de papel, de gaze, de tule, de fumaça, de arruído, de arabescos.  Os olhos descansam nas lágrimas dos foguetes.  É festa, é festa!... que nem só de pão vive o homem, mas também da graça e da beleza.
colaboração Olavo Botelho

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