CARTA ABERTA PARA RENATO RUSSO

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CARTA ABERTA PARA RENATO RUSSO por Regina Rousseau



Ontem, voltando do enterro do meu tio, parei diante de uma pedra mortuária e, sentada com a chuva, choramos juntas. Conheço decór essa dor. Uma dor aguda, fina.

Sentimentos de perda e perplexidade voltaram novamente à minha vida, que agora estão catapultados, soltos no ar.

Mesmo passados dezessete sóis, as flores da saudade, ainda invadem o país, o estado, a cidade, o quarto, e numa rotina escrita a mão, desenho o balanço da cidade para você:

de dia falta água, à noite falta luz. Bendita seja cada dia nossa cruz!

Ninguém sabe o que está acontecendo. Tão pouco, fica difícil prever o que vem por aí.

O furor e a indignação do nosso Pai chegaram ao limite, no entanto, poucos percebem e resistem aos furacões, aos terremotos, às inundações, às corrupções.

Mas pela luneta de Galileu, nosso povo tem tentado, até eu.

Quem sabe o destino? Quem o ignora? Como de costume, como de outrora, o perigo vinha muitas vezes, na forma do desconhecido, do inesperado; hoje, dormimos com o inimigo ao nosso lado.  Por quê? Não sei.
A nossa espécie se extingue. Cultivam uma cultura de guerra em nossos meninos que brincam com brinquedos que matam, como o exterminador do futuro.

O nó da guerra do Iraque ainda engasgado pelo orgulho da força, da hegemonia, da prepotência. Varreram a Rússia, os Tigres Asiáticos perderam e recuperaram os dentes.

Derrubaram outro presidente dissidente. E o insano Chaves mesmo morto ainda governa nosso vizinho.

No congresso, no senado, baixaram outro decreto. Há C.P.I.S. para todos os lados.

No jornal, na rádio, na televisão, desintegraram o átomo, mas falta ainda o preconceito.

A época está para teorias confusas que se lançam sem o ritmo de suas músicas.

E antes que o sinal feche e mate todos os sabiás, nosso país ainda têm palmeiras, ainda são as mesmas, as cores da nossa Bandeira. Mas não sei onde foram parar os jequitibás nem onde estão os heróis de alma comedida. Colocaram em jogo suas vidas e, muitos as perderam numa emboscada.

Procura-se parlamentar legal, ético e moral  "em plena campanha eleitoral".

Procura-se por um país do futuro que nunca chega porque as fronteiras mudam sempre de lugar.

No mais, o delírio do consumismo, os gráficos de ações, o sobe-e-desce, o mercado futuro.

MAS É PRIMAVERA!  E nas ruas, há cheiro de pólen no ar.

Contador de histórias, trovador do amor, nova geração escuta seus versos melancólicos e rebeldes pelas coisas que não se conseguem mudar. E muitos ainda se perguntam: De onde nascia tanta poesia para continuar nessa trilha? De onde retirava o néctar tão precioso e sofrido que alimenta legiões por quase duas décadas, de esperança por um mundo melhor, mais poético e pacífico?

Somente grandes líderes mudaram alguma coisa no mundo pelas palavras, e estes não passam jamais. Com toda calma com toda glória, entram para a história.
Seu grau de idealismo, sua honestidade pessoal, a coerência de seus propósitos não foi tempo perdido. Sobrevivem até hoje com evidência e brilho. Soam e ecoam a cada nova estação. As ideias de um gênio criador, de um poeta supremo é a alma da música do nosso tempo. Um som que antes não se ouvia, numa leveza de espírito, numa fusão sem igual da música e da poesia.

No meu calendário, você foi a um passeio cósmico conduzido pela palma do divino, morar na paz com o sol que nunca se põe.
Mas o vislumbro sempre através das estrelas que reluzem sobre o frágil teto da minha cabana, nas russas montanhas, entre a Serra do Mar e da Mantiqueira, que continuam no mesmo lugar; embora numa corrida ao ouro, garimpeiros estrangeiros de uma Termoelétrica insana e arcaica, conseguiram tirá-la do mapa geográfico do Vale do Parayba, simples assim, num passe de mágica.

Regina Rousseau


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