PRIMAVERA por Ruth Guimarães

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Ruth Guimarães

Li há muito em Joel Silveira: “uma esperança aos poucos vai ganhando tamanho no coração dos soldados. Trata-se da primavera. Na primavera aquela montanha fica toda verde, salpicada de flores vermelhas. Os rios voltam a correr e, na metade do dia, as suas águas são mornas. Virá o degelo que atolará os caminhos e sujará o mundo de uma argila negra. Mas, numa determinada manhã, uma flor terá nascido de uma lama ressequida e então será a primavera. Haverá sol.”

Falava dos pracinhas brasileiros que, na campanha da Itália em buracos visguentos de lama, tiritando de frio, esperavam o sol.


Talvez alguns entendessem, antes, de espera, vindos que eram de uma região que aguarda, na soalheira e no pó da terra calcinada, a benção da chuva. O que dá valor às belezas e excelências da vida senão o nosso desejo? De que serve a água para o que não tem sede? E o fruto para o farto? E o beijo para o indiferente? E o prazer para o saciado? Saciados estamos todos nós de flores e de verdes.

Mas há alguns, gnomos ou poetas, príncipes ou feiticeiros, santos ou endemoninhados, para quem foram feitas a água, o fruto, a flor; a canção, a ave a onda.

Estes possuem a terra, embora não sejam mansos de coração. Ou talvez sejam. Na primavera, que também foi feita para eles, olham com pupilas que absorvem, o verde mais verde que todas as esmeraldas do mundo. Para esses, a primavera, acompanhada ou não de imprevistos, esperada e desejada ou não, venha como um impacto, ou levemente, lentamente, imperceptivelmente, com seu cortejo de zéfiros e pássaros – é um novo, um quente, um inexplicável anseio. Que há nesses renovos, tão suave, que toca uma corda, não sei qual, que hibernava? Que irá acontecer de vital e secreto, não já na árvore que reverdesce, mas naquele que a contempla? (E porque a contempla). Há no seu silêncio uma vibração que lembra um cântico. O leve adejar das folhas, a essa brisa de outubro, comove. Sugere adeuses, gestos mansos, lenços e asas. Empresta acre fragrância ao ar, que sentimos quando aspiramos profundamente. Tem cheiro de verde, e tem gosto de verde.

Queria dizer, a respeito da primavera, que coisa tem de essencial e vivo, mas embora julgue sabê-lo, a palavra certa continuamente me escapa. À vida contida na folhinha nova, nem folha ainda, não sei o que responde dentro de nós. Surge, cresce, estua – nova, clara, luminosa – a esperança. A espera. A Vida.

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