Pescadores de tilápia parte 2 por Ruth Guimarães

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 Pescadores de tilápia – 2

 Ruth Guimarães

 Pois eu contava que, na noite escura do rio assombroso, cada pescador deitou de bruços na pedra e esperou a hora – quando o rio dorme. Era tarde.

O relógio da igreja tinha varado o coração do tempo com onze pancadas de bronze, sem poder quebrar o encanto. Foi quando o rio dormiu. Não se ouviu mais nem uma bulha. A água era óleo grosso, parado. Cada pescador, deitado de bruços, pegou a cutucar com a ponta do facão, embaixo do negrume de pedra, o cascudo negro, a nação de peixe mais feia que há. Parece um sapo. Parece um monstro ante-diluviano, em ponto pequeno. (Peixe e pedra cercados de um halo de prata.) Com a outra mão segurava um balaio, por baixo, para aparar o bicho. O cascudo é feio por fora e bom por dentro, como uma gente. É só sapecar na brasa, para arrancar a horrenda carapaça, e aparece a carne branca, diluente.


Já não conto da fogueira, do cheiro do peixe bem temperado frigindo, do rio que recomeçou sua cantiga. Ninguém não viu mutuca nem pernilongo, o foguinho espantou o frio. E era noite muita. De muito luar.

Dita do Bujão, que foi uma empregada muito engraçada que tivemos, costumava dizer que peixe não devia ser caro, porque a gente não planta, não cuida, não trata, não cria, é só ir “lá” buscar. Pois, Dita, dissemos, por isso o governador do estado tratou de fazer uma plantação de peixe no Paraíba, mandou semear dourado. E, ante a expressão dela:

- Você não acredita? Está no jornal!

- É. Vocês querem me empulhar porque eu não sei ler.

O Brasil agora tem Ministério da Pesca. Que decerto vai melhorar entrepostos, formar técnicos, desenvolver mais rapidamente a piscicultura no país. Quem sabe até motorizar a frota pesqueira. Mas está claro que não é dessa pesca que eu falo. Falo da pescaria com vara e linha, muito lenta, muito linda, cheia de peripécias emocionantes: quando o peixinho morde, quando vai caindo de um em um, até encher o samburá. E a espera, quando dá pra pensar tanta coisa, longamente, com o olhar parado na reverberação do sol, relâmpagos sobre a água. O iguapé é verde, o verde ingá se curva tonto sobre a correnteza, tanta flor, tanta borboleta, tanta coisa! tanta canoa, abicando ligeira nos portos arranjados à beira-rio. A água é fria gostosa nos pés e nas pernas, enrolando-se na gente como toalha fria. E às vezes é preciso mergulhar até a cintura para desenroscar um anzol. E quando chove, lá está o pescador de tilápias, impávido, enfrentando a fria garoa, para conseguir o seu pescado nem sempre em abundância, e barato nem um pouco. Só o preço das passagens e do material pescante!...

É assim. Pescar é esporte e poesia.

E as tilápias? Eram só pretexto para esta crônica.


Colaboração Olavo Botelho

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