Pensamenteando Raquel de Queiroz por Ruth Guimarães

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Pensamenteando Raquel de Queiroz


Ruth Guimarães


         Amor é jogo forte, só vale no tudo ou nada: amar é uma aventura heroica e insuperável, fora disso, tudo é perfumaria, amor suposto, talvez querer bem ou gostar – amar, nunca. Saiba ainda que, ao contrário do que se pensa, amor é coisa rara. Não é a todos que se apresenta a oportunidade de amar, nem se encontra a capacidade de amar em todos a quem a oportunidade se apresenta. É mister que se reúnam capacidade e oportunidade, ocasião e pessoa. Quanto ao objeto do amor – isso é somenos. 


         Se você ainda tem olhos para enxergar feiuras no seu suposto amado, se tem cabeça para lhe descobrir defeitos, é porque não ama. Se ele não lhe parece belo, irresistível, único – é porque não ama. Se por amor dele não está disposta a perder tudo, nome, fama, amor próprio, corpo, sangue, alma e divindade – então não ama.

         Se qualquer homem do mundo, se qualquer outro homem lhe parecer mais bonito e mais interessante do que ele – então não o ama.

         O mais difícil há de ser a escolha do que é bem e do que é mal; cada um tem que consultar a própria consciência e ver a qualidade do seu erro, onde foi que traiu o espírito ou traiu a carne, pois a carne também tem as suas leis e a sua ética. Aquele que mente, é claro que peca contra o espírito. E quem diz que ama sem amar, simulando os gestos do amor sem sentir, peca ao mesmo tempo contra a carne e contra o espírito, porque aí são o corpo e a alma os ofensores. Ou os ofendidos.

         Pecam, sim, os que mentem para colher proveito, os que levantam falso testemunho, os que se gabam por vaidade ou impostoria.

         Pecam os cobiçosos, os que se afadigam atrás de dinheiro e poder. Mas não sei se fará parte dessa mesma feia ambição o desejo de possuir a terra, de agarrar-se à terra. Porque a terra, um seu pedaço de chão, é como voltar ao ventre de nossa mãe ou aumentar aquele chão à nossa carne ao nosso sangue.

Enfim, pecam sem remissão os mesquinhos, os covardes – quero dizer, os covardes que usam a fraqueza dos outros para exercício da sua crueldade. Pois aqui cabe também uma ressalva: os medrosos não pecam, antes pecam os bravos porque são arrogantes. O medo é o mais antigo e fiel companheiro do homem e é o medo que nos faz conhecer nossas limitações e nos torna humildes. E não há outra virtude que mais agrade ao céu do que a humildade, nem outro pecado mais desagradável do que rolou nas profundas perseguido pela espada de fogo de São Miguel Arcanjo.

A vida é como um gás volátil, tem tendência a se expandir e sumir-se; não importa a robustez do vaso, sempre dá jeito de encontrar uma fissura por onde fugir.

Portanto, nos aconselha aquela que dizia não sabia consolar nem dar conselhos: olhe os outros com os olhos desprevenidos, olhe o mundo, olhe as coisas. Transforme-se em espectador e, enquanto seus olhos puderem enxergar, quantas coisas terá para ver!


Colaboração Olavo Botelho

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