Para que se vestir por Ruth Botelho

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Para que se vestir


Ruth Guimarães

 Analisando rapidamente tudo quanto temos visto, chegamos à conclusão que por três motivos principais se usa a indumentária: para enfeite, por modéstia e para proteção. Há ainda um elemento que é mais ou menos como o perfume para a flor: um meio para atrair a atenção do outro sexo. Então a roupa é elemento de gala para época do namoro. E ainda podemos acrescentar o caso da roupa feita especialmente para aterrorizar, como mantilhas, enquanto as virgens usavam a cabeça descoberta e os cabelos soltos. Entre os egípcios, velhos e moços vestiam-se de modo diferente.
Os reis  antigos usavam a púrpura e o cetro. Na China a nobreza usava seda, enquanto o povo apenas podia envolver-se em lã, linho ou algodão. Quanto aos enfeites, tribos mais atrasadas recorreram a cicatrizes, a tatuagens, a pinturas, à mutilação e a deformações, enquanto que, num estágio mais adiantado, vieram os colares, as plumas. As caudas, as pedras e anéis no lábio ou no nariz.

            Digamos que ainda por pudor se embrulhe em panos o homem e principalmente a mulher. Na Tunísia ela se enrola de tal maneira que desaparece dentro de panos riscados e estampados. Na Turquia, até há pouco tempo, da mulher só apareciam os olhos, por sinal belíssimos. E no Brasil colonial viam-se as mulheres envoltas no bloco, de dentro do qual emergia parte do rosto. A mulher embocada era uma herança oriental, moura, vinda através do espanhol e do português.

            E quanto à proteção, de que já se falou tanto, é mister incluir nela não só a proteção contra frio, calor, acidentes e picadas de inseto, mas também contra as mágicas, os espíritos e os demônios, o que condicionou novas variações do vestuário e o uso de amuletos. Vê-se que não é uma questão simples, e que, através do vestuário, muito se pode estudar da maneira de ser de um povo.

            Anatole France disse: “Se me fosse permitido escolher agora os livros publicados cem anos depois da minha morte, sabeis o que eu queria? Não um romance, absolutamente, nem um livro de história. Tomaria um figurino para ver como se vestirão as mulheres daqui a cem anos, um século depois da minha morte. E esses panos recortados me diriam mais sobre a humanidade futura que todos os filósofos, os romancistas, os pregadores, os sábios”.

Pois se Anatole France tivesse apanhado um figurino da Roma imperial, teria sabido, sem precisão de filósofos nem sábios, que o mundo estava acabando. Sempre que o povo exagera suas modas, entrega-se a demasiado luxo, e as mulheres fazem da elegância e dos vestidos o principal escopo de suas vidas, trata-se de uma época de decadência, e a civilização vai-se acabar. Aconteceu assim nas grandes civilizações da Antiguidade, e Roma apenas repetia o canto de cisne para morrer.

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