O testemunho do Alemão

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O testemunho do Alemão


 Ruth Guimarães

 O pessoal arranjou um vagão de bom tamanho, não sei onde, diz-que para colocar no bosque, com fins turísticos. Enquanto não se arrumava o local o monstrengo foi estacionado aqui e ali, pelas ruas, sempre incomodando. Até que alguém sugeriu que se poderia largá-lo no lixão, que era da Prefeitura, isto é, não tinha cerca nem dono, era espaçoso e o vagão e não incomodaria ninguém. E lá se foi o elefante branco para o lixão. Dias depois os catadores de lixo deram o alarme. Gente! O vagão sumiu! O que atraiu muita gente para o local. É, sumiu mesmo! Pra onde foi? Pra onde não foi? Acabaram prendendo dois suspeitos: o Quintanilha e o Nicodemos. Se alguém viu alguma coisa foi o Alemão, que sai tarde do serviço e passa por aqui todos os dias. E o Alemão foi intimado a comparecer perante o juiz e prestar depoimento.


Foi procurado então pelos advogados dos suspeitos, queriam ensinar-lhe como fazer o depoimento. Procuraram adoçar a pílula.

-                          Você não tem experiência, pode dizer alguma coisa que prejudique o nosso constituinte.

Mas apareceu o chefe do Alemão, não puderam explicar coisa alguma nesse dia, no outro já era a sessão no tribunal, ficou tudo por isso mesmo.

À primeira pergunta e à primeira resposta, ficaram estarrecidos.

-                          O senhor sabe quem foi que deu sumiço no vagão que estava no lixão da cidade?

-                          Sei, sim senhor. Foram esses dois aí.

-                           Diga os nomes.

-                          O Quintanilha e o Nicodemos.

-                          Tem certeza?

-                          Tenho. E digo mais. Todo o mundo sabe na cidade.

-                          Você viu quando eles rebocaram o vagão?

-                          Ver eu não vi, mas li em todos os jornais. Saiu no Atos. No Momento. No Regional. No Classificadão. Até na TV saiu.

-                          Tá! – disse o escrivão. É suficiente.

Todo o mundo estava meio xavier, mas os dois acusados riam de orelha a orelha. Na saída o advogado, aquele mesmo que antes queria ensinar, veio apertar a mão da testemunha:

-                          Alemão! Você é demais! Que inspiração!

-                          É. Mas o moço lá suspendeu a folha em que estava escrevendo e eu vi bem o carimbo: Testemunho Invalidado. Eu bem quis ajudar vocês. Eu fiz o possível.

-                          Tá! Tá! Você é o maior!

E aí o Alemão entendeu de tripudiar:

-                          Eu fui desconsiderado. Não me deixaram falar. E o que tinha ainda pra dizer!... Imaginem só, largar bens valiosos do Estado num lugar sem cercadura de jeito nenhum, e lixão ainda por cima. O que está no lixão é de todos. Qualquer um vai lá e pega o que quer. E vocês dois aí...

-                          Nós compreendemos, nós compreendemos!

Foram tratando de afastar o Alemão de local tão impróprio para discorrer sobre cercas e bens do Estado desaparecidos.

O Alemão arrematou a conversa com esta pérola:

- Juro por Deus que a última coisa que eu queria no mundo era ter meu testemunho invalidado.


 colaboração Olavo Botelho

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