O ENGANO por Ruth Guimarães Botelho

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O ENGANO


Ruth Guimarães

Era uma noite estranha: pingos de prata no céu, os coqueiros se descabelando, numa paisagem de calendário. E, no silêncio, por demais vazio, um cheiro doce de angélicas machucadas. Uma primeira comunicação por telefone houvera resultado num imbróglio. Alguém atendera: A embaixada paulista? Sim, senhora! Podem vir. Mas, repentinamente, como quem se dá conta: E quem é a senhora? O que?! Uma das professoras? O que?! Dirige a delegação?!! Então vieram senhoras também? E moças?! Catorze! Aaaah! E em seguida, como se tivesse agarrado uma cobra: um instantezinho.
Vou acordar o coronel! O meu pessoal perplexo, em pé, perto das malas, na rodoviária deserta de Salvador aguardando, duvidava: Era lá mesmo? Que há com eles? Não tinham dito que sim? A voz no telefone voltou daí a um século: O coronel disse que podem vir para cá. Ele resolve. Resolve? Afinal, o que estava errado? No saguão do pavilhão B esperava o tenente coronel Genival de Freitas, com seu todo de diplomata. Recebemos um rádio em que se afirmava não haver dúvidas quanto ao alojamento... era o que dizíamos, em resposta aos “não esperávamos”. Porém, explicações para lá e para cá, emergiu a história toda, e o engraçado qüiproquó. Tinham recebido o pedido do Tenente Horácio Lopes, feito por intermédio do Tenente Sá. Mas o pedido falava em professores e estudantes paulistas. Não passou pela cabeça de ninguém que fosse uma comissão mista. Jamais que tinham entrado como hóspedes. Isso eu entendi. Que incongruência as saias e o colorido, as falas agudas e rápidas, e as risadas, no quartel de macheza muita. Contra o negrume do portão das armas, a sentinela imóvel, reta com o seu fuzil. Entravam e saíam homens em uniforme pardo, falavam-nos em voz máscula, de maxilares firmes. Coturnos ressoavam pesados nas pedras do piso. Jamais aconteceu que uma delegação mista... E o Tenente Sá intercalou um comentário com uma perplexidade sincera: Sim, senhor, coronel! Por esta eu não esperava! Pois quando tinham recebido o ofício, a coisa seguira os trâmites rotineiros. Uma embaixada? Muito bem. Estamos às ordens. Avisem que concordamos. Nem se lembraram mais disso. Os rapazes chegariam, o oficial do dia mandaria trocar lençóis nas camas dos dormitórios dos alunos; regulamento: saídas, entradas, silêncio, horário das refeições, e no mais, estivessem à vontade, a casa é nossa. E o Tenente Coronel meio confundido dizendo: ”não temos acomodações para moças, que pena!” E todas nós doidas por um banho. “...mas – estava ele dizendo (era inacreditável)...mas mando desocupar uma ala dos rapazes.” Não contarei dos rostos radiantes, nem da festa dos corações. “E – estava o coronel dizendo – eu não deixaria em dificuldades uma embaixada de São Paulo, o grande Estado, de quem recebi uma hospitalidade magnífica nas várias vezes em que lá fui; São Paulo, o Estado amigo...” Também não contarei daqueles moços que, enquanto conversávamos, e o coronel nos dizia tais alvissareiras coisas, desocupavam os dormitórios, escapulindo repticiamente de pijama, pelos corredores, com um travesseiro embaixo do braço, e a escova de dentes na mão. “E – estava dizendo o coronel – por esta noite ficam nesta ala, amanhã...” Ora viva, coronel! “amanhã será outro dia...”


 Colaboração Olavo Botelho

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