FILOSOFIAS por Ruth Botelho

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FILOSOFIAS



Ruth Guimarães Botelho


Uma referência aqui, outra ali, a gente acaba informada de orelhada de uma porção de assuntos, e um deles é Teilhard de Chardin. Ainda mais agora que uns moços andam se preocupando em alicerçar suas atitudes com a filosofia, o que já não é sem tempo, as menções se fizeram mais freqüentes.

Há muitos caminhos neste mundo, mas caminho nunca é demais. E a notícia que nos chegou é que o filósofo francês, através da metafísica, serenou uma desesperada Dalila, que havia recorrido ao suicídio, tão negra lhe parecia antes a vida. Como forma de consolo, evidentemente, funciona. Mas muito antes de Teilhard de Chardin, e sem filosofia nenhuma, eu vou contar:


Em Jacareí, pelos arredores de Avareí, por perto da linha da Estrada de Ferro, em cima do morro, em arruamentos novos recém-loteados, há muitos centros, de um espiritismo encabulado, florescendo à sombra da igreja romana e cada um dos que os freqüentam se declaram católicos. “O padre proíbe, sabe? mas lá só se fala em Deus, e eles são gente de muita caridade”. De modo que às segundas, quartas e sextas, o centro de dona Madalena, ou era Gertrudes, ou dona Eufrásia, um desses nomes que não se usam mais - se enchia de gente. Às segundas geralmente se dava água fluida e homeopatia “temperada”, já nas garrafinhas, acônito, briônia e beladona para gripe, súlfur, sina, para infecção, para febre, para dentição, para dor de barriga, para tudo. Às quartas havia sessão, iam sempre os mesmos fiéis, a médium era uma mocinha magra, com olhos no fundo que ria à toa e que chorava à toa. ia assim aquele movimento sem muita animação, nem quando chegava visitante de São Paulo, quando sem mais nem menos, o centro se transformou num centro social. Iam as moças caprichosamente vestidas, com penteados na moda, e ficavam numa algazarra muito risonha até a hora da sessão. E aí docilmente se davam as mãos e calavam as boquinhas pintadas de vermelho, como era moda. E, o que era mais surpreendente: ora uma ora outra, era tomada por um espírito que, as mais das vezes as fazia suspirar e gemer, porém era muito consolador, porquanto depois da sessão elas mostravam esfuziante alegria. E esse espírito as fazia buscar socorro com o médium, ora! e eu tinha me esquecido de contar que o médium era outro, um rapagão de um metro e oitenta, risonho, amável, fala macia, de olhos negros e cabelos ondulados, moreno cor de jambo, com uma boca bem cortada e dentes brancos, bonitos. Chamava-se Zé Bueno. Pois as mocinhas gemiam e suspiravam, dizendo com voz aflita, mas com timbre estranho, como se outro fosse quem falava: ai, meu irmão Zé Bueno, e o irmão não tinha mãos a medir de tanto acudir moça bonita. Não quero estabelecer confronto, e depois, como já disse, Zé Bueno não era de muitas filosofias. Mas mesmo sem elas era à sua maneira o Teilhard de Chardin de muita mocinha, que tornou a achar o encanto da vida. São muitos os instrumentos de que se serve a Providência.


colaboração Olavo Botelho

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