Conto de natal por Ruth Botelho

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     Conto de natal


Ruth Guimarães

Quem atendia a porta era uma caipirinha matreira, de olhos negros buliçosos, riso muito cheio de covinhas, a cor da boca bem cortada avivada com papel vermelho, e o cabelo escorrido de Cabocla encrespado a papelote. “Sêo” João Caetano teria seus cinqüenta bem contados, mas o riso dela o encorajou. Demais, ela sabia as respostas, tinha ensino, não era nenhuma lambeta da cidade.

-Sua graça, inda que mal pregunte – que ele falou em tom meio enleado.

-Prigunta bem. – Ela deu a contra-senha. – Maria das Dores, sua criada.

-Criada de Deus – secundou “Sêo” João, tocando no chapéu de palha.

E foi assim, isto é, terá havido um antes.
Quem pode colocar o principio das coisas no seu verdadeiro principio? Foi o olhar que promete e nagaceia, foi o muchocho de falso pouco caso, desmentido pelo sorriso, foi a conversar sem sentido, mas entremeada de dúbias significações. A certa altura ele se sentiu autorizado a fazer as perguntas fundamentais. Das dores, ‘cê gosta de mim? Não faz mal que eu sou um rapaz de idade?... Domingo posso ir na sua casa pedir casamento pro seu pai? Respostas? Que são respostas? Ah! O sorriso luminoso da Das Dores, ah! O brejeiro sorriso de Das Dores!... Se eu tivesse um franguinho, disse a modo de resposta, eu fazia um almocinho melhor pra mecê. Foi a conta pra “Sêo” João Frangueiro lhe levar um jacá de frangos gordos, carijó de crista vermelha, e uma franga nova, de boa qualidade, “pra criar”. Os dois caipiras mais velhos acertaram o negócio, no meio de muita baforada de cigarro de palha enrolado com fumo do Quilombo. Faltavam alguns dias para o Natal e entre um sorriso cheio de covinhas e um olhar de inesperados brilhos, Das Dores lamentou não poder festejar, que a gente gasta muito e o dinheiro do pai não chega pro supérfluo. E “Sêo” João na mesma semana deixou em casa do sogro mais um jacá com meia dúzia de frangos gordos. O diacho foi o baile de batizado na casa de um compadre. Das Dores foi, e sapecou com vontade. “Sêo” João deu o estrilo, decretando com autoridade de noivo: Das Dores, ’cê não dança baile mais. Homem não põe a mão na cintura de mulher meu. Ah! a risada de Das Dores, e as coisas cruéis que uma caipirinha de quinze anos pode dizer a um homem de cinqüenta. De’estar, disse ele, eu vou buscar os frangos. Foi. Não adiantou nada. Já tinham sido comidos à razão de um por dia, e “Sêo João não tinha mais arma nenhuma contra Das Dores.

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