Do lado de lá do espelho por Ruth Botelho

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Do lado de lá do espelho



Ruth Guimarães

E como se prendessem aquelas lianas a uma doce recordação, apanhei-as com mãos que diria comovidas, se as mãos também pudessem recordar, e pudessem sentir outra vez, antes de tocá-las, a maciez dos fios cor de ouro, gostosos contra a palma, friozinhos nos dias quentes, agarrei-as em todo o caso com o gesto rápido dos jovens, tanto influi um pensamento de amor no ritmo da vida. Vós não sabeis evidentemente do que se trata. E eu também não saberia, não fossem os descuidados anos passados no sítio do velho Botelho, e as cambalhotas no campinho. Ali as douradas lianas do cipó sumo se enleavam nas varas flexíveis da guanxima e se estendiam como um capelo de ouro sobre as franças do maricá. Era de vê-las: flor, coma e coroa. Delas me ficou uma impressão de beleza e de gratuidade. Delas me ficou uma visão de luz escorrendo pelos ramos. Delas guardei a lembrança de um toque caricioso. E se enlearam inextricavelmente nos dias perdidos os seus fios de sol.


A infância é um país que prefiro não freqüentar. Deixá-lo para Lygia Fagundes Teles e para Helena Silveira, que ainda buscam o seu inefável encanto, e às vezes o encontram. Mas o passado viera ao meu encontro e era formoso. Desencadeara uma série de lembranças. Trazia-me os dias de antes, os belos dias, e, à maneira de Proust que capturara o tempo, partindo da chávena de chá, pensei que o recuperaria a partir de um punhado de fios dourados de cipó sumo. E foi assim que peguei um punhado de fios e fui jogá-lo em cima dos pés de alecrim do campo, que se agitavam muito verdes e alegres, ao sol, não digo belo, mas sol, em suma. Vi o cipó a pouco e pouco viçar e se entrançar sobre o verde e se enrolar e cair em lindos fios brilhantes, de um amarelo forte de ouro velho, em franjas desiguais. Mas, ao mesmo tempo, o esmeralda do alecrim desmaiava para um malva sem vida, que se resolveu em cinzento, em chumbo, e em marrom, para depois parar na cor do mato seco, esturricado. E o cipó, a princípio tão lindo, agarrou com tentáculos ávidos os raminhos, lançando pequenas garras que pareciam dotadas de pensamento, um pequeno e maléfico pensamento próprio. Parecera-me uma dessas epífitas amáveis, que se firmam apenas numa planta e acenam ao vento, e vivem não sei do que, contido no ar, e afinal era uma parasita cruel. Arranquei-o dos galhos, inteiramente. Dias depois, alguns anéis que ali ficaram, brotaram fios novos, mais dourados e mais ávidos. Ah! Eu terei que cortar os verdes alegres alecrins do campo! Pois que fracassei na busca ao tempo perdido.

Não, não voltarei ao país da infância. O que era de ouro e sol, quem sabe lá em que monstro se tornará?

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