Culinária de antanho por Ruth Botelho

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Culinária de antanho


Ruth Guimarães

A vida da casa, a verdadeira, capaz que estivesse nas atividades escamoteadas. Atrás das portas, por assim dizer. Concentrada na cozinha, domínio das mulheres. Funcionando até para visitas informais.

Diaristas, novidadeiras (ia passando por aqui)

Indromistas (queria ver se a senhora já sabia)

Lamurientas (tem boldo pra me arranjar umas folhinhas? Passei mal à noite...)

O tipo bicão (vi uma goiaba madurinha, no pé. Se a senhora não se incomodar...)


Chamavam no portão:

- Entre! O cachorro não morde! Ah! É a Turíbia. Dê a volta! Entre pela porta da cozinha. Você é de casa! Café?

- Brigada! Dê cá um golinho.

As coisas principiavam, e às vezes terminavam, diante do fogão de lenha, ao alegre crepitar da madeira ressequida, à vermelha claridade do brasido.

O patrão não tomava parte. Ou estava de serviço dormindo. Quando voltava do serviço, enfurnava-se no quarto. Se vinha acender o cigarro de palha na brasa, silêncio grande o acolhia.

- Que há? Perderam a língua? Há pouco não estavam tão caladas.

Jogo de bicho era todo santo dia, na hora do primeiro café. Cada um com a caneca de folha na mão. Uma fatia de pão de milho, segunda, terça e quarta. Quinta-feira, broa. Sexta, bolinho de arroz. Sábado, bolão de fubá, assado na panela de ferro com testo de brasa. Domingo, rosca de nata, biscoito de polvilho, broinha de queijo. Pão, de padaria, mesmo, só de vez em quando. Do bolão, a encarregada era Maria. Quitanda, broinha, bruvidade – é brevidade, mãe! – rosca, biscoito, tudo mãe fazia, assando no forno, erguido com barro de cupim.

Era bom.

Muito melhor do meio pro fim do mês, longe do pagamento, quando o dinheiro andava escasso e carecia inventar o de-comer.

- Pessoal! Hoje é fubá torrado.

Torrado às bolotas, feitas à custa de orvalhar com leite e banha de porco derretida. A colher rodava na caçarola, no mexe-mexe de não grudar no fundo. Salgadinho, fogo, esbruguento, torresminho no meio. Ou então viradinho de sobras, feijão-farinha-de-pau-e-ovo-mexido, ei galinhada boa! Não ficava um palmo de terreno sem revirar, na busca das ninhadas. A pedrês, a peva e as angolinhas só botavam no mato. Farofa de banana com toicinho frito, receita de Sinhá Bolão. Gente! eu tenho nome! Ceis não pensem que eu não sei do que andam me chamando. Não esquente a cabeça, comadre! Esses meninos são encapetados. Sinhá Bolão saía enfunada. É agora. E a maria-correia sentava no lombo de quem estivesse mais perto.

Mãe tinha um jeito ruim de exemplar. Ou batia no primeiro que pegava, ou batia em todos eles, de um em um. Um apanha porque fez e os outros porque esconderam a arte.

Tempo de inhame, frito na gordura de porco. Tempo de batata-doce, assada no forno ou na cinza do fogão. Maria se tratava a leite de cabra mocha, com farinha de milho. Antônio mastigava pururuca, fazendo ruído de queixada de burro que come milho seco no bornal. E café e mais café, plantado, colhido, posto para secar, descascado, abanado, torrado e socado em casa.

- Traz banquinho! O café está pronto!

Que Mané banquinho! Sentar era em cima da taipa, que a mãe fiscalizou, fazendo. Para desgosto do pedreiro, mestre na arte, cheio das medidas de cem anos atrás, ficou a obra do fogão mal-acabada, com um rabão de quase metro-e-meio, pra tição nenhum não cair. Na realidade, construída pra ser a sala-de-estar da cozinha.

Qual era o cômodo mais alegre da casa? Feio, isto sim. Chão batido de terra preta. Panelas escuronas, cabos avultando para o lado de baixo e de fora da prateleira, colocadas de borco, umas por cima das outras. Mesa enorme, velha e encardida, áspera, com grandes tábuas de fora a fora, tudo lavado e esfregado com sabão de cinza e soda cáustica.

Quem olhasse pra cima veria o teto de telha de bica, o madeirame de pau roliço, negrejando de picumã. Branco era o fogão de taipa, barreado de tabatinga colhida nas beiradas do córrego.

Na hora do almoço, feijão pula-pulava no caldeirão craquento. Nas chuvas, o milho verde perfumava a casa inteira, cozinhando na panela grande. E que se cuidassem as galinhas se alguém da casa adoecia, porque canja é santo remédio pra revigorar enfermos.

Ah! o cômodo mais alegre, mais claro, mais quente, mais barulhento. Era a cozinha, a coxzinha de antanho, onde se praticava a mais deliciosa culinária da minha terra.

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