Cristo baiano por Ruth Guimarães Botelho

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Cristo baiano


Ruth Guimarães

             Água de Meninos trazia a sua feição habitual, com tanta gente de cócoras, junto da pobre mercadoria: balaios contendo farinha ou camarão, caranguejos pretos de lama, montes de jiló e de quiabo.  Aqui, folhas de bananeira, forrando o chão, onde se amontoavam as mangabas, acolá coco, maracujá, goiaba, pimenta, bananas da terra muito compridas, douradas, parece que cheias de sol. 
A água do mar se derramava em lilás, seda e pétala.  Sobre as ondas, docemente, se embalavam os saveiros.  A uma pergunta, se estará aqui outra vez amanhã, o homem que vende flocos de paina, talvez farinha, talvez retalhos da fugidia vaga, sob o nome de fruta-pão, responde descansadamente: “Querendo Deus...”

Essa resposta me faz lembrar de Monsenhor Neves, que me deu uma estranha resposta certo dia.  Éramos colegas de magistério, numa escola de cidade do interior.  Conversávamos freqüentemente.  Os assuntos eram os costumes, a literatura, a educação, os valores morais.  Com base no rumo dessas opiniões, das dele, como sacerdote, eu lhe perguntei certo dia:

- Padre, o senhor é católico?

E ele, rápido, sem parar para pensar, e com um ar assim de quem corrige uma asneira:

- Dona Ruth, eu sou baiano...

Deus participa e muito da vida baiana.  Nessas manhãs esplendorosas dos dias santificados, feitas para justificar o provérbio: “não há domingo sem sol e nem sem missa”, as igrejas de Salvador estão completamente cheias, com gente assistindo, isto é ouvindo do lado de fora a cerimônia e dela participando, no adro, nas escadarias (o que não se vê nesta nossa apressada São Paulo).

Na festa do Senhor do Bonfim, um povaréu se comprime nas ruas.  Ninguém pode virar-se para onde quer, mas vai para onde se dirige a onda de povo.  A preocupação com Deus não transparece no fato de estar a igreja repleta, tão enfeitada, Senhor, de angélicas de adocicado perfume, nem porque todos agüentam estoicamente esse perfume doce e quente e não sai pra ir respirar lá fora.

Mas vede! É festa, as barraquinhas se alinham em torno da igreja, ou diante dela, mais de quinhentas, subindo e descendo ladeiras.  Seus nomes são lindos.  Uma se chama confiantemente Barraca do Senhor meu Deus.  Outra é Deus Comigo.  E outra: Deus que me deu.  E outra, Deus Menino.  E aquela: assim Deus me ajude.  E mais uma: Deus me guie! E ainda mais: Com Deus eu vim.  E assim, dezenas, centenas.  São barracas de negócios, de culinária, dessa pantagruélica Salvador.  Delas se desprende um aroma perturbador, cálido de pimenta, e doce de leite de coco, de azeite de dendê.

Com esses nomes, sentindo essa intimidade com Deus, (não à maneira interpeladora e atrevida com que antigamente se tratava Jeová) percebemos algumas coisas.  Amar a Deus é um modo confiado e brasileiro e doce de se amar.  Deus é pai, talvez avô.

Dá para se entender porque se diz que Cristo nasceu na Bahia?


colaboração Olavo Botelho

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