Conversinha sobre arte por Ruth Guimarães Botelho

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Conversinha sobre arte


Ruth Guimarães

Decididamente, a minha cidade não é terra de músicos. Minto. Não é terra de conjuntos, de orquestras, de profissionais organizados, que músicos há muitos por aí, nos butecos, em noites de sexta. Relacionados, conhecidos, tirando os que arranham, há uns duzentos e tantos violinistas. Jamais alguém conseguiu juntar pelo menos dois deles, para uma seresta. A Secretaria da Cultura da cidade se impôs, neste momento, a obrigação de criar uma Banda Municipal. Instrumentos são muitos, novos, atraentes, pisto, flauta-doce, sax-tenor, prato, e outros e outros. Abriram espaço para ensaio, contrataram um vero professor, talentoso.


Conta Osório César que, havendo no Hospital do Juqueri, em Franco da Rocha, vários doentes que conheciam música e tocavam instrumentos, certa vez lembrou o Dr. Leopoldino Passos de encarregar um antigo esquizofrênico paranóide de organizar uma banda. Fez-se uma coleta entre os médicos e empregados, e comprou-se o instrumental para uma pequena charanga. O posto de regente coube a um parafrênico místico, pistonista e compositor. Encomendaram-se peças harmonizadas com partituras, dobrados, valsas, rocks. A banda se chamou Charanga Hebefrênica. Entre os músicos, destacavam-se, de vez em quando, guinchos estridentes. A trompa e o trombone rasgavam acompanhamentos distonados. Em compensação, a bateria brilhava pela justeza na marcação.

Algumas vezes acontecia que o pistonista atormentado por alucinações características do seu quadro mental, baixava a cabeça, persignava-se, soltava uns grunhidos e ajoelhava-se, rezando. Passada a crise, volta a interpretar a sua parte. O baixo, que era epilético, podia ser tomado repentinamente de crises convulsivas;

Um dia, fui ouvir um concerto dado pela Charanga. Os doentes iam tocando bastante bem, revelando um espírito de organização e sociabilidade razoáveis e também boa memória musical, ao tocarem de cor. Às tantas, algum largava de mão a corneta, o trombone, e plantava uma bananeira em cima do estrado. O resto da turma – taratatchim! taratatchim! – continuava com a tocata. O outro voltava dali a pouco, recomeçando a função com o maior entusiasmo. E eram “intermezzos”, com o flautim pulando num pé só, a percussão desistindo, para caçar borboletas inexistentes e o auditório e o restante da banda – em frente! em frente! – certos de que o trânsfuga voltaria.

Longe de mim a comparação. Não quero levantar falso testemunho contra os bandeiros, bandistas, nossos. Mas ouso cogitar que, se alguém der com uma gaiola de passarinho, com um chama cantador, daqueles bons, ou vara de pescar com carretilha, com esses rios e esses vales e esse sol e essa alegria dos dias cálidos, e com esses caminhos que não levam para lugar nenhum, a não ser para o infinito, ah! ninguém volta para a Banda, não!
 colaboração Olavo Botelho

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