Colar de Pérolas por Ruth Guimarães Botelho

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“Colar de Pérolas”


 Ruth Guimarães

Raquel de Queiroz, a Divina, esteve sempre preocupada com a metonímia. Alguns artigos seus trazem inúmeras modalidades novas e engraçadas de metonímia. Quanto a mim, menos clássica, com referência a bizantinices de estilos, prefiro a metalinguagem. Tanto a erudita, profunda de uma Lispector, satírica de José Cândido de Carvalho, - como, e ainda mais, a metalinguagem inconsciente das crianças e de outros ignaros. Ah! Ignaros!


Grande colheita se faz nos meios escolares, pois, quanto mais, digamos perfeitos, os meios de comunicação, mais depressa comunicam os erros. O que é privilegio da nação brasileira. A coisa anda assim no vai da valsa, pelo mundo todo. A França que está muitos furos adiante de nós, teve como best-seller, nos últimos anos, um livro em que se colecionavam os empregos raros e imprevistos de algumas palavras, ou a invenção de outras, por meio de processos imediatos, inconscientes.

As pérolas:

O rapazinho parou diante do aviso de matrícula e leu que era preciso levar a certidão de nascimento e dois retratos 3x4. Olhou para o companheiro e perguntou:

- Que negócio é esse de retrato três vezes quatro?

A menina da 4ª série lendo, em voz alta, deparou com palavra antessético e pronunciou - anti-sepético. A classe começou a rir e ela consertou depressa: anti-pissético.

Conversa na sala dos professores:

- Para se entender bem o sentido da palavra é preciso que ela esteja incinerada no contexto;

Informação dada muito alegremente:

- Em casa temos todos os anos a consoante de natal.

- Consoada, você quer dizer?

- É isso aí.

Quando da formação da guará voluntária da segurança, na cidade, a moça ponderou:

- A maioria trabalha sem receber, presta serviços gratuitos à cidade, mas também há os guardas renumerados.

Notas biográficas de pessoa importante da cidade, dada em jornalzinho do interior: É casado com dona Antonia Antunes, tendo o seguinte filho: Luís Antunes.

Informação de um guarda rodoviário pernóstico a um senhor que queria saber das condições da estrada para Campos do Jordão:

- Aquela estrada nunca está boa. Se é na seca fica pueril, no tempo da chuva lamurienta.

Desculpa do rapaz que faltado à sabatina:

- Sabe fessora, houve festa lá em casa, mamãe precisou de mim para ajudar.

- Festa, é?

- Sim, senhora, a minha irmã ficou noiva profissional.

Os numerais são fecundos em extravagâncias.

Um escreveu:

Aquele homem deve ter quadriênios anos.

E outro:

João é o otogenário aluno bom da classe.

Aluno da 5ª série, 11 anos, escreveu 460 em numerais ordinais, assim: quatrocentos sexagenários.

Aluno dando nome aos personagens de seu conto:

Ele era o João do Beiço, irmão do Toninho Trovão;

Evidentemente nem tudo é cômico e nem tudo é essa calamidade.

Na descrição sob o título “A Minha Casa” o menininho fechou a sua com esta pérola:

Gosto da minha casa porque ela é minha.

(Fernando Pessoa disse isso mesmo da sua aldeia, com muito mais palavras).

E uma menina:

Minha casa é bonita e confortante.

De um aluno da 6ª série:

Um campo florido é como um amor profundo.

Jane Estela de Almeida, uma garota redondinha, cor de jambo, de 12 anos, escreveu:

Era uma vez um gatinho amarelo, de olhos verdes, que se chamava Bichano.

Todas as noites ele ficava no telhado, principalmente em noite fria ficava olhando as estrelas, a lua porque o gatinho era namorado da lua.

O menino que passava olhou e com rosto de espanto disse:

- Puxa como isto é bacana. Um gatinho ser namorado da lua.

Ninguém se lembra mais já do que lhe foi pedido. Ela deu muito mais.
(“O Cachoeirense”, 01 07/01/1979)

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