ANTROPÔNIMOS por Ruth Guimarães Botelho

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ANTROPÔNIMOS


Ruth Guimarães

 Nas alcunhas, os nomes das pessoas são substituídos por antonomásias.  Algumas vezes laudatórias, outras vezes depreciativas, valendo-se de alusões obscuras aos espíritos desavisados.  Com os homens públicos é freqüente essa substituição de nomes.  Por exemplo, Floriano Peixoto era chamado de Marechal de Ferro, Campos Sales era o Patriarca do Banharão.  Rui Barbosa, a Águia de Haia, Wenceslau Brás o Solitário de Itajubá.  Com os escritores se dá a mesma coisa.  Virgílio foi chamado o Cisne Mantuano.  Shakespeare o Cisne de Avon e também de Bardo de Stratford-on-Avon, lugar de seu nascimento.


O Padre Antonio Vieira dizia num dos seus sermões que existe um vocabulário de púlpito, que desbatiza os santos, e segundo o qual são mencionados: o Cetro Penitente, o Evangelista Apeles, a Águia da África, o Favo de Claraval, a Púrpura de Belém, a Boca de Ouro.  Ou mais simplesmente Davi, São Lucas, Santo Agostinho, São Bernardo, São Jerônimo e São João Crisóstomo. Rebelava-se Vieira contra isso, dizendo:

”E quem cuidaria que a púrpura de Belém é Herodes, que a Águia da África é Cipião, e que a Boca de Ouro é Midas.”

Faz ainda o grande jesuíta outras reprovações, o que não o impediu de por vezes chamar Santo Tomás de Aquino pelo nome de Doutor Angélico.

São Bernardo é também conhecido como Doutor Admirável e São Boaventura como Doutor Seráfico.

A minha terra é terra de muitas alcunhas.  Algumas engraçadas algumas nem tanto.  Umas têm sentido claro, referem-se a defeitos, sestros, acontecimentos, e outras sabei-me lá como surgiram.

Eis umas tantas alcunhas de gente muito conhecida por aqui:

Chico Louco, Gordurama, Pula-N’água, Baita, Mariquinha do Bico Doce.  Existe quase um zoológico: Surubi, Jacaré, Bem-te-vi, Zé Tatu, Porquinho, Bodão, Tubarão, Galinha Gorda, Gambá Careca.  A família inteira dos Caçapa.  A família do Dito Pavão.  Destes, o pai-de-todos compareceu ao Cartório, alegando que era conhecido só pelo apelido de Pavão.  Este nome ele queria adotar dali em diante para si, para a mulher e para os oito filhos.

Aportou a esta cidade de apelidos, certa vez, um promotor de justiça que, ciente desse mau vezo do povo de apelidar todo-o-mundo, quis usar uma estratégia para se precaver.  Chegou, mandou as malas para o hotel, entrou sozinho, que a família viria mais tarde, e não saiu mais para as ruas.  Espalhou a papelada numa mesinha do quarto, fingindo trabalhar.  Por trás da veneziana espiava o movimento.  Entrementes recomendou aos funcionários do fórum, e até aos cartorários, que fossem espalhando por aí que se  chamava João José da Costa Neves (que evidentemente é nome usado apenas nesta conversa).  Depois de uma semana, deu por finda a reclusão.  Estava muito aliviado.  Agora todos sabem como eu me chamo.

Quando saiu já tinha um apelido: Rato de Gaveta.
 contribuição Olavo Botelho

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