A VOZ QUE CLAMA NO DESERTO por Ruth Guimarães Botelho

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A VOZ QUE CLAMA NO DESERTO


Ruth Guimarães

Essas portarias, e ordens e decretos, tudo que proíbe, sempre fere de ricochete em alguma coisa que a gente ama.

Andei sonhando com uma larga correnteza escura, de águas grossas, uns toques noturnos se esvaindo em tinta preta, e, por ali, no chão, encadernações a mão, letras douradas abertas com estiletes em lombadas antigas, brochuras de assuntos raros, ah!
esses buquinistas às margens do Sena.  Ah! esse mundo visto, entrevisto, suspeitado, querido, desejado, perdido ou nunca encontrado.  E tudo isto me vêm à mente com a proibição de comerciar, espalhando mercadorias pelas ruas do centro velho da cidade.  A proibição está bem, a gritaria dos camelôs era mesmo indecente, as bugigangas no chão incomodavam o passo apressado e o senso estético.

Mas havia uns livros velhos pelas calçadas, por aí, no caminho de quanto passo perdido, quando o sebo estava na rua.  E havia rumas de livros, de cambulhada, velhos, antigos, novos, bons e menos bons, livros e livros.

Em se tratando de livros, os que viemos do Interior, poderíamos repetir o enlevo da camponesa de Eça, vinda das ásperas montanhas desabitadas para a cidade grande: Quanto homem! (quantos livros!)

Quantos livros, de quantos precisamos, quantos nos interessam, nos agradam, quanto os namoramos nos mostruários! A proibição de se venderem livros usados no centro, no chão, no caminho, o livro arrolado como bugiganga é que dói.

Impossível comprar um livro, nem que seja um poeta de 5a. classe, à pomada amazonense, por exemplo. Impossível vender livros usados, muito gastos, gritando com a cobra Catarina.

No Oriente havia escribas sentados pelas ruas, de pernas cruzadas, à espera de fregueses.  Onde há muitos escribas, e, ao que me parece, é povo de que temos bastante – pois onde há muitos escribas é que há pouco quem realmente saiba escrever.  Entretanto, onde há livros em todos os lugares, é que há muito quem leia.   Isto devia lisonjear o nosso gosto pela exibição, de sabedoria e do resto.  Topar com livrarias e livreiros ambulantes devia lisonjear a nossa etnia mestiça, inconvencional.  Que se vendessem livros em todos os cantos, e em todas as bibocas, e em todas as esquinas da cidade.  Em frente ao Municipal, nas escadarias, nas calçadas.  E até nos butecos.  Não seria feio, antes pelo contrário. Não é a exibição de livros, pelas calçadas, mas a ausência deles que desdoura.

Tirem os pedintes do centro, os pontos de ônibus, os ambulantes, as canetas-tinteiro, os suspensórios.  Tirem os guardas, o sossego, o sono.  Tirem as marquises, as palmeiras, a sombra, as escolas de samba.
Mas deixem os livros!


 Colaboração Olavo Botelho

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