Língua Humana - Crônicas Ruth Guimarães Botelho

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Língua Humana




Ruth Guimarães



Havia um rei, em tempos que já se foram, o qual, com inveja do renome de um sábio conhecido em todo o país por suas judiciosas lições, quis fazê-lo se atrapalhar na solução de um questionário.- Ouça lá, oh devorador de livros! É certo que você sabe todas as respostas?
- Nem todas, majestade. Mas as mais simples, sim.- Pois então, aqui vai. Diga-me em três palavras o que pode ser a melhor de todas as coisas e ao mesmo tempo a pior delas.- Majestade, é a língua humana.- Como assim?- Com a língua fique sabendo Vossa Majestade, eu canto as magnificências da minha Terra, a vossa bondade, a beleza das mulheres, a caridade das Almas bem formadas. Com a palavra rezo a Deus nas alturas. Com a palavra eu comunico perfeitamente com os meus semelhantes a quem levo as boas novas e o consolo necessário. Com a palavra ensinam-se os filhos, louvam-se os bons e exerce-se a fraternidade. Com a palavra o homem participa do coro dos anjos, em Hosana ao Senhor.- É bastante. Realmente, a língua humana, veículo da palavra, é a melhor coisa que existe entre todas deste mundo. E como pode ser a pior sendo tão excelsa?- Com ela destroem-se as reputações, podem-se tecer ardis, estimular a traição, simular, distorcer, alternar, mentir, caluniar...

- Chega! Chega! – bradou o rei.

E para não ser tentado a destruir a vida do sábio usando a língua para dar uma ordem terrível ao carrasco (tratava-se de um rei justo), bateu palmas chamando as bailarinas e os tocadores de alaúde:

- Vinde! Cantai! Louvai-me como a um soberano magnânimo, que acha a língua humana a melhor de todas as coisas.



colaboração:  Olavo Botelho





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