A civilização do burrico – Crônicas Ruth Guimarães

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A civilização do burrico


Ruth Guimarães

E porque a Bahia é toda doce, cheirosa e mansa, o animal que ajuda a impulsionar a sua civilização de ritmo brando, somente poderia ser o burrico, chamado jumento, chamado jerico, chamado jegue, tão singelo, tão sem jeito, que jegue, na saborosa gíria de caserna, é o soldado malamanhado, o desengonçado, o desengraçado. Mas,
até que o jegue não é tão desajeitado assim. Vamos ver a esse ajudante geral do transporte baiano. É uma criatura sóbria, na cor e na postura. Cinzento, de poucos gestos, pequeno, orelhas compridas, uns toques de branco aqui e ali, olhos líquidos, castanhos, pestanudos, o úmido focinho negro, um jeito de quem anda pensamenteando a desgraçada vida. Está em toda a parte. Encontramo-lo no asfalto, que os seus firmes cascos não estranham, trazendo os cestos de fruta madura, de não sei de onde, por ai. Nas praias, lá está: faz parte da paisagem, como as palmas e as choças. E está em Água de Meninos, pois tanto vem a carga no seu lombo cor-de-cinza, como no dorso azul da onda, dentro dos saveiros. Nas grandes festas religiosas, lá está, quando as comemorações são na rua, todo enfeitado de fitas, e portando imagens, tão solene, com as orelhas tão empinadas, que parece saber o valor do que carrega. À Feira de Santana chega, trazendo homens de Nazaré e de São Felix, aqueles das gaiolas trabalhadas, e trazendo o encourado, o homem calado do sertão, com sua caça empalada e salgada. E põe uma encantadora pincelada cinzenta no verde-gaio dos canaviais do sul. E está nas ilhas, carregando coco verde e manga tiuba. E na areia branca de Abaeté, sob as frondes. E ao longo das aléias de cacaueiros. E descendo ladeiras, e perlongando avenidas e estradas. Põem em cima dele cestos imensos, cheios de giló e coco, e fruta-pão, e jaca, e feijão andu, e atravessam em cima os palmitos, e mais em cima as rapaduras e os compridos jacás de queijo, e, depois de tudo, salta um homem para o lombo do coitado, que é tão baixinho, que as pernas humanas do que o monta quase arrastam no chão. A servidão desenvolveu no jegue perfídias de mulher. É sonso, matreiro, obstinado. Tão frágil parece, e é tão forte. Olha de soslaio, espera, toma atitudes inesperadas. Guarda sob a aparência humilde, inofensiva, artimanhas de bruxo. Parece paciente, mas ninguém pode saber quando esse escravo temperamental vai empacar, nem quando vai mandar para longe, com um bom par de coices, os balaios de quiabo.

Jegue de paisagem baiana! Como eu entendo, ao ver-te, aquela mula do papa que guardou um coice por sete anos!
colaboração:  Olavo Botelho

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