Pescadores de tilápia

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Pescadores de tilápia

 Ruth Guimarães

 Vê-se que os nossos governantes se preocupam em fornecer alimentação farta e a preços módicos para o povo, e nutritiva, e o fizeram de modo que, por assim dizer, ao mesmo tempo que davam o pão davam o circo, as duas necessidades fundamentais do homem. Assim, o Dr. Adhemar de Barros mandou semear ovas de dourado no Rio Paraíba, no vale do mesmo nome, e o Sr. Jânio Quadros foi o responsável pela proliferação da tilápia, um peixinho de palmo, em todos os rios das vizinhanças da capital. Eu vos dei o peixe, agora ide buscá-lo! E lá se vai o pescador de tilápia, munido de uma vara com linha de náilon, um samburá e uma bolsa de feira, buscar a preciosa dádiva.

Em junho não, que faz um frio danado, à noite o vento que passa pelas água do Paraíba vem um bocado resfriado, quem é que aguenta? Enfiar a mão na água no meio da noite está fora de cogitação, e pode bem ser que algum mal-aventurado, sem jeito, leve um tombo e vá aos limos do fundo. Sai de lá bem entanguido. Mas, agora em janeiro, quando as chuvas já estão passando, e o rio, tendo crescido, amarelado, se apincha debaixo das moitas, preparando loca de traíra, então é tempo de cascudo. Pois então, a gente foi caçar cascudo. A ida foi um farrancho alegre, houve risos, anedotas, falatório, pessoal contador de vantagem abrindo os braços assim pra mostrar o tamanho do peixe, e cantoria, apesar de que brasileiro não é gente de muito cantar. Até Dona Adelaide que gosta mesmo de pescar é de caniço e anzol, foi. Até o Toninho do Ciano, pescador afamado dos dourados de dezessete quilos, e mais, foi.   Até João Serafim, que uma vez andou correndo da polícia porque virou o peixame todo do rio de barriga pra cima, com uma carga braba de timbó, foi. Esse João foi o tal que jogou a rede certa noite, pesou no arrasto, será muito peixe? Que ele se perguntou cismado. Era sereia. A coitadinha veio se batendo, o olho verde lumeando, a boca linda aberta, na aflição, o cabelo emaranhado, foi suspirando, suspirando e se acabou. Acabou de morrer, sumiu. Ficou uma esteira de espuma no rastro da canoa, por cima das águas. E, na rede, nada. Nem um buraco, disse ele. E não sei como, digo eu, pois rede tem bem mais buraco do que linha.
Noite de lua, eu disse? Noite de lua muito, de lua muita, noite de muito luar. Alguém falou que estava que era um dia. Mas não, a noite estava era mesmo uma noite. Sobre a escureza, uma toalha de prata se estendeu. Tinha a magia, o sortilégio, a profundeza, o mistério que só a noite tem. O seu bruxedo influiu nos tagarelas e todos se calaram. Cada pescador deitou de bruços na pedra e esperou a hora – quando o rio dorme. Era tarde.

E na semana que vem eu conto o resto.





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